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:: 28 de agosto, 2007 ::

nuvens em cinza.jpg


Tem dias em que o céu se rasga em cinza.

E a gente se pergunta:

Do(as) cinza(s) se faz sol?



:: 24 de agosto, 2007 ::
espaços

wabraao2.jpg

Num espaço de 3 nuvens e 4 letras é que tive você
Na minha alma e te levei por dias e outros dias
E te esquecia depois, na ausência-chumbo dos meus
Sonhos-relinchos que não te acordaram
Nunca.

Num espaço de 10 chuvas e nenhum ditongo é que você me tirou
Da tua pele e me empurrou pra essa noite e nenhuma outra
Sorte se descortinou além das adagas-prata dos teus
Olhos-fantasmas que sempre se afirmam
Sempre.



:: 14 de agosto, 2007 ::


Não que sua memória fosse algo do qual se orgulhasse. Aquelas lembranças fragmentadas, as imagens que apareciam em sua cabeça conforme sentia algum cheiro conhecido, um gosto que já lhe passou pela boca, não eram exatamente uma boa memória. Sua lembrança mais nítida era o lobo.

Aos cinco anos, ela freqüentava o imenso colégio amarelo em que suas irmãs também haviam estudado. Freiras e seus véus esvoaçantes, sua mãe trabalhando na associação de pais, as festas juninas, a clausura – “proibida a entrada” –, a capela vermelha, tudo não passava de uma imagem aqui e outra acolá, que juntas formavam algo que talvez fosse uma lembrança de verdade, talvez algo inventado por ela.

Mas tinha o lobo. O lobo era a coisa mais verdadeira naquele colégio. Ele era imenso, marrom e muito, muito bravo. Diziam que um caçador tinha dado o lobo de presente para as freiras, e desde então ele protegia o colégio à noite, e de dia ficava preso em um tipo de jaula de madeira.

Lobo3.jpg

Um dia, enquanto sua mãe estava em reunião, ela sumiu. Procuraram a menininha por mais de duas horas, e ninguém a encontrou. Quando o desespero já se avizinhava, uma das freiras gritou: Encontrei!. Lá estava ela: a porta da jaula aberta, e ela deitada, dormindo, na barriga do lobo.

O que ela mais achava engraçado nessa história toda eram duas coisas. A primeira: este foi o primeiro sono que serviu para acordar uma pessoa, mas acordar mesmo, abrir os olhos para o que é verdadeiro e o que é inventado. A segunda: todos que ficam sabendo dessa história acreditam em tudo, menos na parte do lobo. Pois bem. É o que a faz rir até hoje, desesperançosamente, tragicamente, histericamente.

O lobo, seus tolos, é a única parte verdadeira. O resto é fábula.



:: 12 de agosto, 2007 ::

papaieeu.jpg

PAI.



:: 11 de agosto, 2007 ::
hoje é dia de santa chiara...


Chiara1w.jpg

...e eu só tenho a agradecer por toda essa luz.



:: 08 de agosto, 2007 ::

O253.jpg

é dos teus olhos que nasceram vários vestígios de sonhos
que se incorporaram nos meus e sonhamos pedaços iguais
- fragmentos gêmeos -
mesmas cores, mesmos cheiros, mesmas letras que tropeçaram
nas escadas e rolaram e me caíram no colo e com elas
eu fiz rima e formei palavras e completei as palavras-cruzadas
por sob a minha pele
com a tinta de polvo dos teus abraços que me tingiam
de azul-escuro, azul-noite, azul-tudo
azul-teus olhos
que se fecharam
e deixaram uma
só uma
palavra incompleta.

*

não sei qual era. e é isso que me mata.



no caminho

4047.jpg


Na imensa bolsa vermelha:

-travesseiros de barulhinho, daqueles de penas bem fofas, pra recostar as vontades
-três cachorros, dois gatos, uma pele de leão e várias almas de cavalo
-um alívio feito de grunhidos que não couberam na garganta
-duas passagens só de ida
-uma inteireza só de volta

*

como dói deixar de escrever aqui. prometo que parei. parei de não escrever, digo. mesmo que escreva besteira. mesmo que escreva pouco. mesmo.



Acredito na força dos cavalos. Pocotó, sabe? Gosto da cor da laranja e do cheiro da baunilha. Sei que sentimentos têm força, a maior força do mundo. Não enxergo tudo o que quero, e minha miopia é metáfora disso. Amo até o fim, sempre, incondicionalmente. Acho que vou ser feliz, aos poucos. E nas touradas, sempre, sempre, sempre, torço pelo touro.
*
Feliz daquele que tem cavalos morando no peito.

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