Oggi-In-Poi.jpg
:: 29 de abril, 2007 ::

Valente: Sou eu.
Dama do Telhado: Sei que é você.
Valente: Shhhh. Não fala nada.
Dama do Telhado: Como não falar? Minha vida é falar.
Valente: Por isso mesmo. Deixa a tua "vida" um pouco. Ouve. Vou te contar a história da tua Vida, com vê, com vê maiúsculo, com vê de veia, com vê de verdade. Com vê de você. Você que fala e fala e fala e tira o vê da vida e tudo fica só ida. Um dicionário sem vê, com ida, sem volta. A letra que te falta é a primeira letra do meu nome. Mesmo que eu finja que não sei. Mesmo que eu não saiba.
Dama do Telhado: Não importa.
Valente: Não importa.
Dama do Telhado: E por onde você entrou?
Valente: Pelas venezianas molhadas dos teus olhos.
Dama do Telhado: Eu sempre as fecho, à noite.
Valente: Você sempre as fecha. Em sonho, as abre. Em sonho, eu entro.
Dama do Telhado: Isso é sonho, então?
Valente: Você não distinguiria um sonho da realidade. Aliás, ninguém distingue.
Dama do Telhado: Isso é realidade, então?
Valente: Não importa.
Dama do Telhado: Não importa.



:: 12 de abril, 2007 ::
Os Benefícios da Lua - Baudelaire

(Tradução de Aurélio Buarque de Holanda)

A lua, que é a própria imagem do capricho, olhou pela
Janela enquanto dormias em teu berço, e disse consigo,
Mesma: - "Esta criança me agrada".
E desceu maciamente a sua escada de nuvens, e
Deslizou sem ruído através das vidraças. E pousou sôbre ti com
Um suave carinho de mãe, e depôs as suas côres em tuas
Faces. Então, tuas pupilas se tornaram verdes, e tuas faces
Extraordinàriamente pálidas. Foi contemplando essa visitante
Que os teus olhos se dilataram de modo tão estranho; e
Ela com tão viva ternura te apertou a garganta que ficaste,
Para sempre, com o desejo de chorar.
Entretanto, na expansão da sua alegria, a Lua invadia
Todo o quarto, como uma atmosfera fosfórica, como um peixe
Luminoso; e tôda esta luz viva pensava e dizia:
- Tu sofrerás eternamente a influência do meu beijo.
Serás bela à minha maneira. Amarás o que eu amo e o que
Me ama: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o mar
Imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar onde
Não estiveres; o amante que não conheceres; as flôres
Monstruosas; os perfumes que fazem delirar; os gatos que
Desmaiam sôbre os pianos e gemem que nem as mulheres, com
Uma doce voz enrouquecida!
"E tu serás amada pelos meus amantes, cortejada pelos
Meus cortejadores. Serás a rainha dos homens de olhos
Verdes a quem também estreitei a garganta em minhas
Carícias noturnas; daqueles que amam o mar, o mar imenso,
Tumultuoso e verde, a água informe e multiforme, o lugar onde
não estão, a mulher que não conhecem, as flôres sinistras
Que sugerem incensórios de alguma religião ignota, os
Perfumes que turbam a vontade, e os animais selvagens e
Voluptuosos que são os emblemas da sua loucura."
E é por isso, maldita e querida criança mimada, que
Estou agora prosternado a teus pés, buscando em tôda a tua
Pessoa o reflexo da terrível Divindade, da fatídica madrinha,
Da ama-de-leite envenenadora de todos os lunáticos.



Acredito na força dos cavalos. Pocotó, sabe? Gosto da cor da laranja e do cheiro da baunilha. Sei que sentimentos têm força, a maior força do mundo. Não enxergo tudo o que quero, e minha miopia é metáfora disso. Amo até o fim, sempre, incondicionalmente. Acho que vou ser feliz, aos poucos. E nas touradas, sempre, sempre, sempre, torço pelo touro.
*
Feliz daquele que tem cavalos morando no peito.

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