Oggi-In-Poi.jpg
:: 29 de abril, 2005 ::
paginada

Tantas páginas em tão poucos dias. No espelho, olha lá, milhões de mim. Vês? Depois da ameaça de chuva, choveu tanto. O barulho da chuva passou, veio o dos trens, clecleque, clecleque, a cada meia hora. O que vai nos trens, não sei; da chuva, sei um pouco. Mas quase nada, a esta hora.
Minha mão na tua carne é bem diferente da minha mão na tua alma. E não sei mais se quero os começos ou os fins. Quero com certeza todos os meios, os meios que me levam, os meios trens-de-carga.
E é tua beleza na vitrine, no espelho, no trem, no barulho. A tua beleza que dá vontade de chorar, a tua beleza que fui eu quem desenhou. A porosidade de tudo o que não é belo, tudo aquilo que começa a diluir na minha frente, e eu não sei se eu quero que dilua.
A minha inconstância toda, ameaçada por ti. Porque "pedra nunca mais", eu disse. E olha só, minha cara de espanto no espelho.
Clecleque, faz o trem. Shame on me.



:: 27 de abril, 2005 ::
show de horror

Alguém pode me explicar o que é aquela Regina "eu tenho medo" Duarte cantando (?!) com o Ivan Lins, no especial da Rede Globo?
Eu pensei que já tinha gente cantando mal. Mas uma pessoa PASSANDO MAL enquanto canta, acho que foi a primeira vez.
Credo.



:: 24 de abril, 2005 ::
tradutoras...

Texto da Dayse (minha ídola), copiado com a devida permissão mas mesmo assim descaradamente, porque é o máximo. Tatoca, veja se você também não se identifica totalmente...

Esse bicho de sete cabeças pensantes
Dayse Batista

Bem no meio da sessão de cinema, ela dará uma bela gargalhada, quando ninguém entendeu o motivo.

Ela se irritará quando, em uma festa, alguém disser que contratou um “personal training” e todos ficarem boquiabertos com a sofisticação do metido a bacana.

Ela baterá o pé com impaciência quando alguém começar a transmitir as últimas notícias que viu em um site brasileiro (ela já sabe antes o que aconteceu, e leu a notícia completa).

Ela se negará a te ouvir cantar em inglês num cara-o-quêêê???!

Ela enlouquecerá se tu, bancário, publicitário, web designer ou algo assim lhe disser que “andou fazendo uma tradução”...

Ela não te dará nem um minuto à tarde e nem parará para ouvir teus berros indignados com tamanha falta de consideração. Um minuto todo mundo tem livre – menos ela.

Ela te atenderá ao telefone, mas começará a perguntar “e daí”, “e então”, e ordenará “resume!” se o assunto não tiver importância capital para o destino mundial, enquanto com o rabo do olho mira a tela do computador como se este fosse explodir no segundo seguinte.

Ela não terá o celular mais caro do Brasil só porque vem tudo em inglês com recursos que outros não sabem usar. Ela sabe, mas também sabe que não são necessários.

Ela será um livro aberto sobre fatos, cultura inútil, estatísticas esquecidas por todos, mas se negará a entregar essas informações preciosas se não for por justa causa.

Ela ganhará por seu tempo, sem ser operária nem outra coisa menos meritória e, por vezes, se recusará a ceder esse tempo precioso a ti, ó mortal desencanado e cuca fresca que só quer um dedo de prosa.

Seu ego precisa ser levado em caminhão de mudança, mas quando sem trabalho, pode ser transportado em uma caixa de fósforos.

Ela não é médica, mas está sempre de plantão.

Ela tem amigos por todos os lados do mundo, mas não consegue viajar nem até a cidade vizinha.

Ela te torcerá o nariz, se fores colega e mandares um bilhetinho com erros de concordância ou ortografia. Talvez nem fale contigo para o resto da vida, mortalmente decepcionada.

Em um dia, tu combinarás um programa e ela concordará, entusiasmada, apenas para uma hora depois cancelar tudinho, sem remarcar o compromisso.

Ela nem chega perto de quem não gosta de ler.

Ela nem tem tempo para amar.

Ou tu a amas ou tu a deixas. Com ela não há opção.

Ela é tradutora.

Por vocação e escolha, sendo o que é, precisará do teu perdão e da tua bênção, da tua compreensão e da tua gratidão, a cada segundo de seu dia nesse uniforme de super-heroína que, às vezes, salva o mundo e, em geral, teme cometer um deslize e afundar como um Titanic, levando meio mundo consigo.



:: 22 de abril, 2005 ::
o poema mais lindo do mundo...

...junto com "Red", de Ted Hughes.
De vez em quando escrevo de novo este poema aqui no blogue, porque cada vez que eu leio mais eu me apaixono por ele. Apesar de não amar particularmente a obra de Vinícius, este poema é absolutamente perfeito. Sinto inveja quando leio, queria ter escrito. Falei nele hoje, senti saudade, reli, me reapaixonei. Reedito aqui (as quebras do poema não são as originais, escrevo aqui como eu recito, ou seja, relevem).

CONJUGAÇÃO DA AUSENTE
(Vinicius de Moraes)

Tua graça caminha pela casa.
Moves-te, blindada em abstrações. Como um T.
Trazes a cabeça enterrada nos ombros, qual escura rosa sem haste.
És tão profundamente que irrelevas as coisas, mesmo do pensamento.
A cadeira é cadeira e o quadro é quadro porque te participam.
Fora, o jardim, modesto como tu, murcha em antúrios a tua ausência.
As folhas te outonam, a grama te quer.
És vegetal, amiga. Amiga!
Direi baixo teu nome, não ao rádio ou ao espelho, mas à porta que te emoldura fatigada, e ao corredor que pára para te andar adunca, inutilmente rápida. Vazia a casa. Raios, no entanto, desse olhar sobejo, oblíquos cristalizam tua ausência.
Vejo-te em cada prisma, refletindo diagonalmente a múltipla esperança.
E te amo, e te venero, te idolatro, numa perplexidade de criança.



:: 20 de abril, 2005 ::
absurdo, absurdo

Trecho da notícia do jornal
Zero Hora de 08/4/2005

Uma cadela de rua, chamada Preta pela vizinhança, foi morta por
jovens na madrugada da última quarta, dia 6, em Pelotas. O animal
foi amarrado ao pára-choque de um veículo e arrastado por mais de
cinco quadras. Pedaços da cadela e dos filhotes que nasceriam em um
mês ficaram espalhados pelo asfalto. Michele Silva, 29 anos, que
cuidava de Preta há mais de um ano, estava se preparando para recebê-
la em casa depois do parto e havia conseguido donos para a
ninhada. A madrugada de quarta-feira já começava quando um grupo de
jovens bebia no bar onde Preta costumava passar as noites. Michele e
alguns amigos, que estavam em outra mesa do bar, escutaram os gritos
de Preta de longe. Acharam que a cadela havia sido atropelada. De
repente, viram rapazes em dois veículos, e o animal sendo arrastado
por uma corda. A polícia abriu inquérito para investigar
a queixa de crueldade contra o animal. Segundo o delegado Osmar
Silveira dos Anjos, três pessoas já haviam sido ouvidas. Um dos
supostos envolvidos, de 21 anos, já teria sido identificado. A
polícia deverá ouvir ainda outras testemunhas do fato. As
investigações deverão apontar de que forma os responsáveis poderão
ser punidos.

preta.jpg
A cachorra que foi morta por criaturas imbecis.

Abaixo assinado contra essa atrocidade aqui: Ação contra a crueldade em relação aos animais.



:: 19 de abril, 2005 ::
quem me conhece sabe...

... que minha vida saiu de um roteiro de almodóvar.
mas eu digo, agora: enfiaram um capítulo de nelson rodrigues no meio.



:: 17 de abril, 2005 ::

ale_e_pai.jpg



:: 15 de abril, 2005 ::
dá licença um segundo?

então é isso, casa nova, abençoada, tudo lilás + laranja + amarelo + verde limão, noites no futon, coração dodói ainda, vontade de ligar e cantar "do I have to climb the highest mountains to make you love me back?" e esperar ele dizer "no, I love you back and let´s stay together forever", mas não vou ligar porque não dá mais, já fiz o meu possível e o impossível lateja aqui nos dedos, sabe, ele sabe, acho que todo mundo no mundo já sabe, a espera sempre cansa, dói, chateia, dá lagriminhas no canto do olho na fila do banco, mas minhas amigas me fazem companhia e me fazem esquecer disso por umas duas ou três horas por dia, à noite não, porque o futon lilás chama sonhos e sonhos sempre me acordam, por dentro e por fora, e flores recebidas ontem de um menino muito fofo, minha casa está bem florida, as velas de baunilha da tatoca também perfumam, bem como os sabonetinhos-de-coração da soulitcha, querida, será que se eu lavar meu coração com esses sabonetinhos sai a dor? diz que sai. diz que sai.
...e proprio io che ti amo ti sto implorando aiutami a distruggerti...



corrente

Corrente literária


Litcha mandou, tô fazendo.
O texto recebido está copiado aqui em baixo. Bora.


"Trata-se de propagação de uma entrevista sobre Literatura da Língua Portuguesa. As perguntas são sobre a relação do entrevistado, na condição de leitor, com a literatura.

E o fato de respondermos a estas perguntas, sem ameaçar a privacidade de cada um de nós, ajuda a revelar o perfil de cada um.

É bom sabermos o que aqueles com os quais nos relacionamos lêem.

Talvez outras perguntas pudessem ser formuladas, mas estas são básicas e, em se tratando de generalização, é melhor assim.

Devo responder às perguntas da entrevista, reproduzindo-a aqui.
Ao mesmo tempo, devo indicar outras pessoas - no mínimo três.
As pessoas indicadas por mim, caso aceitem, deverão fazer o mesmo que eu."

A seguir, a entrevista e as indicações.


Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Compasso de Fuga, de Christian Bobin.

Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
Sim. Me apaixonei pelo Heathcliff, do Morro dos Ventos Uivantes. E pelo Griffin, perdidamente, do livro Griffin&Sabine.

Qual foi o último livro que compraste?
A biografia do Renato Russo

Qual o último livro que leste?
A biografia do Renato Russo.

Que livros estás a ler?
Os meus quinhentos livros de poemas, tudo ao mesmo tempo.

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Birthday Letters, de Ted Hughes. Poesia Completa de Cecilia Meireles. Songbook do Chico Buarque. Compasso de Fuga, de Christian Bobin. Griffin&Sabine, Nick Bantock. E a Bíblia. Tá, são seis. Whatever.


A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?
Erikota. Porque sim.
Siloca. Porque sim.
Lanitcha. Porque sim.




:: 13 de abril, 2005 ::
clareando

180px-Santa_Chiara.jpg


Angelo di Dio che sei il mio custode,
illumina, custodisci, reggi e governa me
che ti fui affidato dalla Pietà Celeste.
Amen.



:: 08 de abril, 2005 ::
sobre amores

que amores terminam?
*
não terminam. continuam no peito que segura o soluço, nas risadas de pérolas, nas lembranças de viagens incontidas e risonhamente trágicas. eles continuam no abraço do corredor triste, nos perdões esparramados no pavimento cinza, nas mãos-dadas-como-se-foram os corrimãos de escadas vermelhamente ultrapassadas.
*
ultrapassamos soluços, risadas, lembranças, abraços, perdões, mãos-dadas, escadas.
o amor, não ultrapassamos.
e ele também não nos ultrapassa.
*
credimi. perchè il tempo esiste, e se esiste il tempo, io sono qui.



:: 06 de abril, 2005 ::
sopra

teus risos outonais, teus olhos de rio.
as coisas que se enroscam em meus pensamentos e descem para meus cabelos em forma de cores. todas.
caminhos em curvas, contrastes em tabernas, sussurros em dó.
o que permanece e o que amalgama, como te falei um dia, antes de tudo cair. eu estava certa antes de estar errada, e olha lá no céu aquele que anuncia. porque é certo que sim, porque é certo que vem. porque é certo que há.
se eu soubesse da finitude de tudo como sei agora, aqui, na ponta dos dedos, talvez pudesse não ter sido, mas não podia porque eu ainda não era, e agora sou. nem estava; agora sou.
não existe mais morrer de amor porque já morri várias vezes e agora não morro mais. já precisei morrer, pular de pontes, cortar três dedos, tomar cicuta, mas agora não mais.
as coisas não mais explodem. ardem, mas não inflamam. dóem mas não assassinam, e empurram pra vida e não pro outro lado.
pra teus risos outonais. pra teus olhos de rio.



:: 05 de abril, 2005 ::
volcano

das coisas de que mais me lembro são o seu cheiro, a cor dos seus olhos, o tamanho das suas mãos e a textura dos seus cabelos. e são tão infrequentes e ao mesmo tempo tão presentes, não pergunte o porquê porque não tem razão nenhuma. só estão, como sempre estiveram de uma maneira sublinear, subliminar até. a gente fecha os olhos e finge que não está lá, que não existe.
é o que estou fazendo agora, forçosamente. a poesia que cisma em vir, e eu me deito no edredom e aborto toda ela, toda a poesia e todos os pensamentos. porque não dá pra viver nem com a lembrança nem com a esperança da poesia. viver, agora, só com o que existe de verdade, aqui, na mão, na boca, no espaço físico à minha frente.



:: 01 de abril, 2005 ::
isso vale a pena

Hoje eu e Toquinha nos encontramos na Fnac pra tomar um café e botar o papo (atrasado três anos, é isso, Toca?) em dia.
Depois fomos vasculhar as prateleiras da loja. Achei um livro sobre o qual já tinha lido e que, juro, se você já tiver passado dos 25 anos vale muito a pena comprar.

anos80.jpg


Dá vontade de postar tudo que tem no livro aqui no blogue, mas não dá. São trezentas páginas de cultura pop dos anos 80, a obra mais completa sobre o gênero até hoje. TV, revistas, figurinhas, livros, música, cinema, esporte, guloseimas, diversão, modismos, tá tudo lá.
Se você tiver cinquenta estalecas sobrando no bolso, compre que não vai se arrepender.

Livro: Almanaque anos 80
Autores: Luiz André Alzer & Mariana Claudino
Editora: Ediouro



Acredito na força dos cavalos. Pocotó, sabe? Gosto da cor da laranja e do cheiro da baunilha. Sei que sentimentos têm força, a maior força do mundo. Não enxergo tudo o que quero, e minha miopia é metáfora disso. Amo até o fim, sempre, incondicionalmente. Acho que vou ser feliz, aos poucos. E nas touradas, sempre, sempre, sempre, torço pelo touro.
*
Feliz daquele que tem cavalos morando no peito.

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