Oggi-In-Poi.jpg
:: 28 de julho, 2004 ::
proposta

Olha só.
A questão é como um envelope em branco, agora, sabe? Estou colocando o envelope dentro da garrafa, eu, náufraga, a ilha aqui, debaixo dos meus pés, a areia quente que me amarela os ossos. E jogo a garrafa na primeira espuma de onda que vem me cheirar, farejar, reconhecer, cachorro-pastor de água, cachorro-pastor que me guarda, vai, leva, leva, leva pra pessoa certa, leva que te dou carinho.

E tenho esperança de que o envelope em branco vai chegar às tuas mãos, vai chegar, você ali, na outra praia, do outro lado, num barco, rindo e tomando sol, ouvindo música alto e olhando as pernas que passam. Mas você vai olhar a garrafa e as iniciais do seu nome vão estar lá, escritas em vermelho, como estão já aqui dentro do meu peito, a pata do bicho em alto relevo, aqui dentro, na garrafa, meia de mim, ali. Em água e sal.

Você sabe meu nome. Você até sabe falar meu sobrenome.
Ainda lembra do endereço?
Sobe no perdigueiro do mar, no perdigueiro que me caça, e vem, vem logo.
Porque aqui não tem sombra de dia. E a noite não existe.
Não existe.



:: 27 de julho, 2004 ::
AH

Ah e por favor pare de dizer que me entende se não entende.
Pare de dizer que quer se não quer, não diga que não quer se quer.
Seja simples, seja sincero - porque eu NÂO ENTENDO nada que não seja estritamente o que é dito, e se eu passei essa impressão tantos anos atrás foi errado, ou menti, ou era outra.
Ou todas estas opções - e não são? Não é tudo igual?
Então solta esse teu cavalo que eu sei que você tem e me ouve e me escuta e me perdoa e acredita em mim de novo - haha, será? - porque era isso e é isso e sempre vai ser isso e a gente sabe.
*
Tá, você nem existe. Esse texto é pra ninguém.



troca de bichos

Porque os cavalos que estavam aqui pocotó foram enxotados por estes gatos imensos que arranham o peito por dentro. E sangro e tusso e dôo, e não enxoto os gatos porque os ratos mortos ali de dentro lhes são atraentes. Porque eu queria escrever coisas engraçadas mas não dá. Dá mas não quero, agora, porque não sou. Não sou coisas engraçadas agora, não serei por algum tempo.
Porque quero ir pra Santorini conhecer o vulcão. Ir pra lá e só falar boa noite depois das 23h e nadar no mar escuro e frio. Mar, olha só, eu, eu querendo mar, que me deu tanto medo sempre. Eu querendo o Oceano. Eu querendo me afogar no Oceano porque ele me conhece. Porque sempre me conheceu, eu, o Vulcão, eu, só eu, pequena eu que preciso mergulhar em dois braços compridos e macios e ficar ali pra sempre, viver ali pra sempre, viver ali, viver.
Só viver, era isso, era isso que eu quis e fui pro lugar errado uma vez, voltei seguindo a trilha das pedrinhas e a porta se fechou. Ah, não mora mais aqui; mora mas está na praia; mora mas não tem mais esse nome; mora mas casou.
E eu, ali, vestida de chapeuzinho vermelho, voltando com a cesta vazia, dormi na soleira da porta.
*
E tudo isso não serve de nada, não é? Não serve de nada - são os livros que tenho de traduzir, a coca light que tenho pra beber. E o dia seguinte que tenho que acordar. Eu acordo o dia, entende?
Ah, talvez entenda.
Acho que sim.



:: 25 de julho, 2004 ::
futuro

(post sem acentos - meu teclado quebrou)

Nao me sinto mais apta a falar de voce, meu futuro,
Porque nao te vejo e nao te sinto e nao te sei.
Futuro que escorre em alguma parede que nao e minha
Futuro que explode bombas cujo veneno nao conheco.
E isso nao e bom e nem e ruim.
Mas e bom e ruim ao mesmo tempo.
Porque sei que nao quero mais nada que me doa
Quero tudo a que me doe, quero tudo que se doe,
Tambem

E sem me doer e em me doar imagino-me mais eu
Nao que nao o seja, hoje, talvez sendo,
Mas vislumbrando um mais-eu que cintile e que sorria
E que tenha um suspiro guardado para despejar
Sobre maos que protejam e acarinhem
Iluminadas por olhos que brilhem de desejo
E de ternura, a cada passo que dermos,
Amem.

Meu futuro eu nao sei bem se existe.
Eu ja existo pra ele, e isso e o que importa.



:: 23 de julho, 2004 ::
sobre

Um cansaço imenso. Parece que carreguei três elefantes roxos até o circo, nas costas, e voltei com elefoas brancas.
Sério. Luto e luta, luto e luta, luto e luta, essa é a minha montanha-russa agora.
*
É uma dor física, até, aquela dor pós-academia, fora a cabeça que lateja e os olhos que arroxeiam. Mas é isso, e em meio a isso tudo tem muito trabalho, tem horizontes no palco lá na frente - fechados, ainda, mas alguém ainda puxa a cordinha da cortina, lá da coxia, pra mim. Ah, se puxa.
*
Tropeço, manco, até arrasto. Mas cair, isso não mais.
Já conheço bem o chão. Ele é frio demais pra mim.



:: 22 de julho, 2004 ::
descasca...

E minha pele, agora, que queima, aqui, bem na bochecha esquerda. Arde, está áspera, tal uma queimadura, mesmo.
*
Não sei se desenvolvi uma certa alergia ao meu próprio choro. Estou perto de concluir isso.
*
Mas, de qualquer forma, é uma das coisas mais estranhas que já vi.



:: 20 de julho, 2004 ::
Bobin

«Je suis fou de pureté. Je suis fou de cette pureté qui n'a rien à voir avec une morale, qui est la vie dans son atome élémentaire, le fait simple et pauvre d'être pour chacun au bord des eaux de sa mort noire et d'y attendre seul, infiniment seul, éternellement seul. La pureté est la matière la plus répandue sur la terre. Elle est comme un chien. Chaque fois que nous ne nous reposons sur rien que sur notre coeur vide, elle revient s'asseoir à nos pieds, nous tenir compagnie.»

«Ce n'est pas un journal que je tiens, c'est un feu que j'allume dans le noir. Ce n'est pas un feu que j'allume dans le noir, c'est un animal que je nourris. Ce n'est pas un animal que je nourris, c'est le sang que j'écoute à mes tempes, comme il bat - un volet ensauvagé contre le mur d'une petite maison.»

«Tu dis n'importe quoi, c'est tellement agréable, d'ailleurs n'importe quoi, ce n'est jamais n'importe quoi : tu es là, tu passes d'une chambre à l'autre, tu parles toute seule, et voilà ce que tu entends lorsque tu parles toute seule, de la chambre rouge à la chambre jaune, dans le passage : hier, j'étais heureuse. Aujourd'hui je suis amoureuse, et ce n'est pas pareil. Et c'est même tout le contraire.»

Christian Bobin.



à beça

À beça. Sabe? À beça.
Não tenho cabelo roxo, mas vivo à beça.

I´ve loved you for a long long time
And there ain´t no cure for love.
I´m aching for you babe
And I cannot pretend I´m not.

Vivo à beça. E sabe, quando eu acordo eu penso, "wow, ainda respiro".
E isso, creia, é uma puta de uma vitória.



:: 19 de julho, 2004 ::
Oggi in Poi

Não sou vítima de nada. Muito menos mártir.
Não sei tudo o que quero, mas sei o que não quero.
Profundamente.
Meu livro caminhando, eu caminhando, a vida atropelando,
mas é assim mesmo.
O catálogo da minha vida não está escrito, mas está esperando para que eu escreva. Sabe? Não, você não sabe.
Mas tem muita gente que sabe, e passa pela minha vida.
Alguns até ficam. Não amalgamam como eu amalgamo, porque sou Pietra, lembra? Ah, eu lembro porque a condição está impregnada e guia.
Guia mas pode ser desviada, às vezes, e a gente finge, e a gente ri, e às vezes a gente goza.
Por tudo, de tudo.
Minha memória não me trai, minha pele me acompanha.
Mas eu amo e amo e amo.
E isso nunca, ninguém, em nenhum lugar, vai tirar de mim.
Há.



:: 11 de julho, 2004 ::
morte

O que quer uma mulher? Um homem que cuide dela. Cuide, cuidar, do latim cogitare, ah, você devia saber. Ter cuidado, tratar, considerar.
Do tipo abraçar quando há medo. Do tipo proteger quando há perigo. Do tipo amar, você conhece esse verbo? Não de dicionários, mas de vida? Vida, você conhece vida? No sentido de pulsar. No sentido de ser. No sentido de estar.
Estar, raízes, pertencer a. Não, você não conhece. Nunca conheceu. Pedra sou eu; qualquer coisa é você. Qualquer coisa que não pertence, que não é. Que nunca foi e nunca vai ser pra nada. Pra ninguém.
Porque, sabe, a gente protege e cuida e considera. E você não.
Compartilhar, pertencer, enraizar. Verbos desconhecidos pra você. Como se fosse vergonha.
Você foi, eu fiquei, com tudo, os cachorros, a casa, as coisas, as sementes, as pimentas, tudo, tudo está comigo, e pode deixar que eu cuido. Cuido bem de tudo. Eu sei cuidar, eu sei cuidar bem.
O INTHESUN acaba aqui, não sei mais o que acaba aqui, talvez tudo, talvez nada, já que o que nunca existiu não pode acabar.
FINE



Acredito na força dos cavalos. Pocotó, sabe? Gosto da cor da laranja e do cheiro da baunilha. Sei que sentimentos têm força, a maior força do mundo. Não enxergo tudo o que quero, e minha miopia é metáfora disso. Amo até o fim, sempre, incondicionalmente. Acho que vou ser feliz, aos poucos. E nas touradas, sempre, sempre, sempre, torço pelo touro.
*
Feliz daquele que tem cavalos morando no peito.

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